Resumo rápido: bloqueador neuromuscular não deve ser usado apenas porque o paciente está “assincrônico” com o ventilador. No paciente crítico, ele é uma medida de exceção: pode ser considerado principalmente na SDRA grave precoce, quando não se consegue aplicar ventilação protetora de forma segura apesar de ajustes ventilatórios e sedoanalgesia adequados, ou quando há assincronia com deterioração clínica relevante.
A pergunta não é “o ventilador está sincronizado?”. A pergunta é: o paciente está recebendo uma estratégia ventilatória segura sem que o esforço respiratório esteja agravando a lesão pulmonar?
Assincronia, por si só, não indica bloqueio
Assincronia é um achado. Antes de bloquear, é preciso entender a causa:
- modo e ajustes do ventilador inadequados;
- fluxo inspiratório insuficiente;
- PEEP ou tempo inspiratório mal ajustados;
- dor, ansiedade, delirium ou sedação inadequada;
- acidose metabólica, febre, hipoxemia ou aumento do drive respiratório;
- secreção, broncoespasmo, auto-PEEP ou problema mecânico.
Bloquear pode “silenciar” o ventilador sem resolver o motivo que levou o paciente a lutar contra ele.
Quando o bloqueio pode fazer sentido
O cenário clássico é a SDRA grave precoce, com necessidade de entregar ventilação protetora de modo rigoroso — baixo volume corrente, limitação de pressão e estratégia adequada de PEEP — e em que isso não é possível de forma segura sem paralisia.
Nessa situação, o bloqueio pode:
- reduzir assincronia com impacto clínico;
- limitar esforços inspiratórios excessivos;
- permitir controle mais preciso do volume e das pressões;
- reduzir risco de lesão pulmonar induzida pelo ventilador.
Mas ele não é obrigatório para toda SDRA, nem uma resposta automática ao desconforto ventilatório.
O que fazer antes de bloquear
- Confirmar a gravidade e o objetivo ventilatório. O bloqueio não substitui ventilação protetora; ele pode viabilizá-la em casos selecionados.
- Revisar o ventilador. Modo, fluxo, tempo inspiratório, PEEP, gatilho, volume corrente, pressão de platô e presença de auto-PEEP.
- Tratar causas reversíveis de aumento do drive. Dor, hipoxemia, acidose, febre, broncoespasmo, secreções e delirium.
- Garantir analgesia e sedação adequadas. Paciente bloqueado sem sedoanalgesia adequada continua percebendo dor e sofrimento, mas perde a capacidade de expressá-los.
- Reavaliar se a assincronia persiste com repercussão. É a combinação de SDRA grave, necessidade de ventilação estritamente controlada e falha das medidas anteriores que sustenta a decisão.
Qual é o problema do bloqueio?
Bloqueio neuromuscular não é neutro. Ele elimina movimentos e sinais clínicos úteis, dificulta a avaliação neurológica e exige vigilância rigorosa de analgesia e sedação. Uso prolongado também pode contribuir para fraqueza adquirida na UTI.
Por isso, quando necessário, deve ser usado pela menor duração possível, com reavaliação frequente. A diretriz da ATS sugere limitar a duração a até 48 horas quando possível em SDRA grave precoce.
A moldura honesta
O dado: diretrizes recentes sugerem bloqueador neuromuscular em SDRA grave precoce, com recomendação condicional e baixa certeza de evidência.
O raciocínio: assincronia importante pode ser consequência de uma estratégia ventilatória inadequada, de dor, de acidose ou de doença respiratória grave. Bloquear antes de entender a causa é tratar o monitor, não o paciente.
A opinião: em terapia intensiva, bloqueador não é ferramenta de conforto do ventilador. É uma medida para proteger o pulmão quando uma estratégia ventilatória segura não pode ser entregue de outra forma.
Perguntas frequentes
Assincronia é indicação de bloqueador?
Não isoladamente. Primeiro corrija causa, ajustes do ventilador, analgesia e sedação. Considere bloqueio apenas se houver repercussão relevante, especialmente em SDRA grave.
Todo paciente com SDRA deve ser bloqueado?
Não. A indicação é seletiva, voltada sobretudo à SDRA grave precoce.
Por quanto tempo usar?
Pelo menor tempo necessário; em geral, evitar ultrapassar 48 horas quando possível.
Posso bloquear sem sedar profundamente?
Não. Analgesia e sedação adequadas são indispensáveis antes e durante o bloqueio.
O bloqueio melhora a sincronia?
Sim, mas isso não significa que deva ser a primeira resposta à assincronia.
Referências
- American Thoracic Society (2024) — atualização da diretriz para manejo da SDRA em adultos
- Society of Critical Care Medicine (2026) — diretriz para bloqueio neuromuscular em adultos com SDRA
Sobre o autor
Dr. Gabriel Rangel — Médico intensivista. Coordenador de UTI no Hospital Santa Rita. Formado pela UFPR. Cofundador do MD Ensino, com pós-graduação em Emergência e Terapia Intensiva.
Publicado em: 16 de setembro de 2026. Última atualização: 16 de setembro de 2026.
Este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui avaliação clínica individualizada.

