Medicina

Qual droga usar para abortar crise convulsiva: doses e o erro mais comum

Benzodiazepínicos na crise convulsiva: doses, vias, escalonamento e os erros que atrasam o controle.

Admin
16 de setembro de 2026
49 visualizações
Qual droga usar para abortar crise convulsiva: doses e o erro mais comum

Resumo rápido: a primeira linha é benzodiazepínico, e qual deles importa muito menos do que quando e quanto. No adulto: midazolam 10 mg por via intramuscular se não houver acesso venoso, ou 5 a 10 mg endovenoso se houver; diazepam 0,15 a 0,2 mg/kg EV, até 10 mg. O lorazepam é a preferência das diretrizes internacionais, mas não está disponível no Brasil.

O erro dominante não é a escolha da molécula. É a subdose. Em serviços pré-hospitalares, a dose média de midazolam administrada foi de 4 mg — menos da metade do recomendado.


Por que a pergunta "qual droga" é a pergunta errada

O que determina o sucesso na interrupção da crise não é qual benzodiazepínico foi escolhido, nem a via. É o tempo até a primeira dose e o tamanho dessa dose.

Atrasar a administração para "ver se a crise cede sozinha" expõe o paciente a mais apneia, mais hipóxia, mais hipotensão e mais lesão neuronal do que a própria droga expõe. Esperar é uma conduta — e é a pior delas.


Doses de benzodiazepínico para crise convulsiva no adulto

DrogaDoseVia e observação
Midazolam0,2 mg/kg IM, até 10 mgRecomendação nível A sem acesso venoso. Com acesso: 5 a 10 mg EV, repetindo a cada 5 min
Diazepam0,15 a 0,2 mg/kg EV, até 10 mgRepetível uma vez
Lorazepam0,1 mg/kg EV, até 4 mgPreferência das diretrizes. Indisponível no Brasil

Sem acesso venoso: midazolam intramuscular

O midazolam intramuscular tem recomendação de nível A e demonstrou superioridade em relação à via venosa no ambiente pré-hospitalar — porque o tempo gasto tentando obter acesso em um paciente convulsivo é tempo de crise que continua.


O erro mais comum: subdose de benzodiazepínico

A maioria dos pacientes recebe benzodiazepínico em dose menor que a recomendada ou por via inadequada. Em um estudo com serviços pré-hospitalares, a dose média de midazolam foi de 4 mg — menos da metade da dose que a diretriz preconiza.

E o motivo da subdose está invertido

O receio que trava a mão é sempre o mesmo: depressão respiratória.

Só que depressão respiratória e hipotensão estão mais fortemente associadas à crise que continua do que ao benzodiazepínico administrado precocemente e em dose adequada.

Quem hesita por medo de rebaixar o paciente está permitindo que a convulsão faça exatamente isso — sem controle e por mais tempo.


O detalhe do diazepam que muda a conduta

O diazepam age em 1 a 3 minutos, mas sua duração de ação no sistema nervoso central é de apenas 15 a 30 minutos, porque ele redistribui rapidamente para o tecido adiposo.

Diazepam isolado não sustenta o controle da crise. Se ele foi a droga utilizada, a segunda linha precisa ser administrada em seguida, e não depois de observar recorrência.


Pense em paralelo, não em sequência

Aos 5 minutos de convulsão, o paciente já preenche a definição de estado de mal epiléptico.

Isso significa que você não aguarda para preparar a segunda linha, mas a administra se a crise persistir após benzodiazepínico em dose adequada, na fase de segunda terapia.

O relógio do escalonamento

TempoConduta
0 a 5 minEstabilização: ABC, tempo da crise, oximetria, monitorização e glicemia
5 a 20 minBenzodiazepínico em dose cheia; repetir uma vez se a crise persistir
20 a 40 minSegunda linha endovenosa: levetiracetam, fosfenitoína ou valproato
40+ minCrise refratária: terapia anestésica, suporte de via aérea conforme necessidade e EEG contínuo quando disponível

Escalonamento ancorado no relógio é o que impede o atraso perigoso — o mesmo atraso que transforma uma crise controlável em estado de mal refratário.


O que corre em paralelo com a primeira dose

No mesmo minuto em que o benzodiazepínico é administrado:

  • Glicemia capilar — hipoglicemia é causa reversível e frequente
  • Gasometria com eletrólitos, com atenção especial ao sódio
  • Noradrenalina preparada para a hipotensão pós-ictal

Abortar a crise não é tratar a causa. E a causa é o que determina se ela vai recorrer.


Qual a segunda linha na crise convulsiva?

O ensaio ESETT demonstrou eficácia equivalente entre levetiracetam, fosfenitoína e valproato quando utilizados em dose plena.

A escolha, portanto, é feita por disponibilidade e perfil de efeito adverso, não por potência. Nenhum dos três é superior aos outros no controle da crise.


A moldura honesta

O dado. Benzodiazepínico é primeira linha consolidada. Midazolam intramuscular tem recomendação nível A na ausência de acesso venoso. ESETT: segunda linha com eficácia equivalente entre as três opções.

O raciocínio. O determinante do desfecho é tempo e dose, não escolha de molécula. A crise que não cede raramente é falha da droga — é falha da dose ou do relógio.

A opinião. A melhor droga é aquela que você consegue administrar mais rápido, em dose cheia. No Brasil, quase sempre é midazolam. Sem acesso venoso, 10 mg por via intramuscular, sem hesitação.


Perguntas frequentes

Qual a dose de midazolam para crise convulsiva? 0,2 mg/kg por via intramuscular, até 10 mg. Com acesso venoso, 5 a 10 mg, repetível a cada 5 minutos.

Qual a dose de diazepam para convulsão? 0,15 a 0,2 mg/kg por via endovenosa, até 10 mg, repetível uma vez.

Posso usar midazolam intramuscular se não tiver acesso? Sim — e é a conduta recomendada, com nível A de evidência. A via intramuscular demonstrou superioridade sobre a venosa no pré-hospitalar.

A partir de quanto tempo é estado de mal epiléptico? Cinco minutos de atividade convulsiva contínua já preenchem a definição operacional.

Diazepam sozinho resolve? Não de forma sustentada. Sua duração no sistema nervoso central é de 15 a 30 minutos por redistribuição. A segunda linha deve ser administrada em seguida.

Qual a melhor segunda linha: levetiracetam, fenitoína ou valproato? O ESETT mostrou eficácia equivalente entre os três em dose plena. A escolha é por disponibilidade e efeito adverso.

Benzodiazepínico causa parada respiratória? O risco existe, mas a crise que continua está mais fortemente associada a depressão respiratória do que o benzodiazepínico administrado cedo e em dose adequada.


Referências

  • RAMPART — midazolam intramuscular versus lorazepam endovenoso no estado de mal pré-hospitalar
  • ESETT — levetiracetam, fosfenitoína e valproato no estado de mal refratário a benzodiazepínico
  • American Epilepsy Society — diretriz de tratamento do estado de mal epiléptico convulsivo

Sobre o autor

Dr. Gabriel Rangel — Médico intensivista. Coordenador de UTI no Hospital Santa Rita. Formado pela UFPR. Cofundador do MD Ensino, com pós-graduação em Emergência e Terapia Intensiva.

Publicado em: 16 de setembro de 2026. Última atualização: 16 de setembro de 2026.

Este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui avaliação clínica individualizada.

MD Ensino

Pronto para se qualificar?

Conheça a Pós-Graduação em Medicina Intensiva da MD Ensino — a única com mentoria individualizada dentro do plantão e imersão presencial flexível em UTI real.

Tags
#emergência#crise convulsiva#neurologia