Resumo rápido: pelo Sepsis-3, choque séptico exige três critérios simultâneos: sepse (infecção com disfunção orgânica ameaçadora à vida), necessidade de vasopressor para manter PAM ≥ 65 mmHg e lactato > 2 mmol/L (> 18 mg/dL) na ausência de hipovolemia. Faltando um deles, não é choque séptico.
Na prática isso significa que o paciente hipotenso com foco infeccioso que normalizou a pressão apenas com volume não preenche o critério — ainda que exija a mesma urgência de tratamento.
A Surviving Sepsis Campaign 2026 manteve a definição, mas acrescentou três elementos que interessam diretamente a quem trabalha com recurso limitado.
Os três critérios de choque séptico
| Critério | Detalhe |
|---|---|
| 1. Sepse | Infecção com disfunção orgânica ameaçadora à vida |
| 2. Vasopressor | Necessário para manter PAM ≥ 65 mmHg |
| 3. Lactato | > 2 mmol/L (> 18 mg/dL), na ausência de hipovolemia |
O choque séptico é definido como o subgrupo da sepse em que as alterações circulatórias, celulares e metabólicas são profundas o suficiente para aumentar substancialmente a mortalidade.
Por que o lactato está no critério
Ele não está ali como medida isolada de perfusão. Ele separa o paciente que necessita de vasopressor daquele que necessita de vasopressor e apresenta disfunção celular concomitante.
Vasopressor sem lactato elevado é uma situação. Vasopressor com lactato elevado é outra — e a mortalidade associada não é a mesma.
"Sepse grave" não existe mais desde 2016
O termo foi eliminado pela Sepsis-3, que removeu os critérios de SIRS e encerrou o modelo de continuum SIRS → sepse → sepse grave → choque séptico.
Quase uma década depois, o termo segue em uso diário em plantões e prontuários brasileiros. Não se trata de preciosismo de nomenclatura: o termo carrega um modelo mental de progressão linear que a definição atual abandonou.
O que mudou na Surviving Sepsis Campaign 2026
A diretriz manteve a definição da Sepsis-3 e acrescentou três pontos relevantes.
1. Sepse é diagnóstico clínico
Declaração de boa prática, em texto direto: sepse é um diagnóstico clínico e não deve ser confirmada nem descartada por um único biomarcador ou teste diagnóstico.
Nenhum exame isolado abre ou fecha esse diagnóstico.
2. O diagnóstico varia conforme os recursos do serviço
Este é o ponto de maior impacto prático no Brasil. A diretriz orienta que o diagnóstico se baseie em avaliação clínica holística, que pode variar entre serviços conforme os recursos locais — incluindo a disponibilidade de exames laboratoriais — e que as recomendações sejam aplicadas de forma pragmática.
Traduzindo: não dispor de lactato não impede a suspeita clínica nem o início imediato da ressuscitação; apenas impede confirmar a classificação formal pelo Sepsis-3.
3. Sepse possível, provável e definitiva
A diretriz passou a trabalhar com níveis de certeza diagnóstica. É uma mudança de linguagem que reflete a realidade da beira do leito, onde a certeza raramente existe no primeiro contato.
E o qSOFA?
A recomendação atual é utilizar NEWS, NEWS2, MEWS ou SIRS em vez do qSOFA como ferramenta única de rastreio — recomendação forte, com evidência de certeza moderada.
O qSOFA permanece útil para identificar deterioração clínica. O que mudou é seu uso isolado como instrumento de triagem.
A definição não é autorização para tratar
Este é o ponto que mais gera erro de conduta.
A definição de choque séptico existe para classificar — serve à epidemiologia, ao desenho de estudos e à notificação. Ela não foi construída para funcionar como gatilho de tratamento individual.
Você não aguarda o paciente preencher os três critérios para iniciar conduta. Quem espera o resultado do lactato para chamar o quadro de choque perdeu tempo — e vale registrar que o próprio lactato tem recomendação apenas condicional, com certeza de evidência baixa.
Definição serve para nomear o que está sendo observado. Não é permissão para agir.
A moldura honesta
O dado. Sepsis-3 mantida pela SSC 2026. Sepse é diagnóstico clínico, sem biomarcador confirmatório. Lactato tem recomendação condicional com certeza de evidência baixa. NEWS, NEWS2, MEWS ou SIRS preferidos ao qSOFA como rastreio único.
O raciocínio. Um critério desenhado para classificar populações não foi construído para disparar conduta individual. A confusão entre as duas funções é a origem do atraso terapêutico.
A opinião. Trate o paciente que está na sua frente e classifique depois. Leia o contexto, não o número isolado.
Perguntas frequentes
Quais são os critérios de choque séptico? Sepse, necessidade de vasopressor para manter PAM ≥ 65 mmHg e lactato > 2 mmol/L na ausência de hipovolemia — os três simultaneamente.
Paciente hipotenso que melhorou com volume é choque séptico? Não, pela definição formal, porque não houve necessidade de vasopressor. A urgência de tratamento, no entanto, permanece.
Qual o valor de lactato no choque séptico? Acima de 2 mmol/L, equivalente a mais de 18 mg/dL.
Sepse grave ainda existe? Não. O termo foi eliminado pela Sepsis-3 em 2016, junto com os critérios de SIRS e o modelo de continuum.
Preciso de lactato para diagnosticar choque séptico? O lactato integra a classificação formal pelo Sepsis-3. A SSC 2026 reforça que a suspeita clínica e o início da ressuscitação devem considerar os recursos disponíveis; ausência do exame não deve atrasar o tratamento.
O qSOFA ainda é usado? Não como ferramenta única de rastreio. A recomendação atual favorece NEWS, NEWS2, MEWS ou SIRS. O qSOFA segue útil para identificar deterioração.
Qual a diferença entre sepse e choque séptico? Sepse é infecção com disfunção orgânica ameaçadora à vida. Choque séptico é o subgrupo com alterações circulatórias, celulares e metabólicas profundas o suficiente para aumentar substancialmente a mortalidade.
Referências
- Sepsis-3 — The Third International Consensus Definitions for Sepsis and Septic Shock
- Surviving Sepsis Campaign 2026 — International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock
Sobre o autor
Dr. Gabriel Rangel — Médico intensivista. Coordenador de UTI no Hospital Santa Rita. Formado pela UFPR. Cofundador do MD Ensino, com pós-graduação em Emergência e Terapia Intensiva.
Publicado em: 16 de setembro de 2026. Última atualização: 16 de setembro de 2026.
Este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui avaliação clínica individualizada.

