Resumo rápido: o tratamento da hipercalemia segue três passos, sempre nesta ordem. Primeiro estabilizar a membrana com cálcio — gluconato de cálcio 10%, 30 ml em 10 minutos — quando houver alteração no ECG atribuível à hipercalemia. Potássio igual ou maior que 6,5 mmol/L exige tratamento urgente, monitorização e reavaliação seriada. Segundo, deslocar o potássio para dentro da célula com insulina regular 10 U em 25 g de glicose e salbutamol nebulizado 10 a 20 mg. Terceiro, e único definitivo, remover potássio do corpo: diurético de alça, ligantes orais ou hemodiálise.
A armadilha do tema está em parar no segundo passo. Nenhuma droga dessa etapa retira potássio do organismo — o efeito da insulina dura 2 a 4 horas, e sem o terceiro passo o potássio retorna.
Passo 1: estabilizar a membrana com cálcio
Indicação: alteração no eletrocardiograma atribuível à hipercalemia. Potássio igual ou superior a 6,5 mmol/L caracteriza hipercalemia grave e exige tratamento urgente, monitorização contínua e reavaliação seriada.
| Droga | Dose | Observação |
|---|---|---|
| Gluconato de cálcio 10% | 30 ml em 10 minutos | Preferido na maioria dos pacientes com sinais de hipercalemia no ECG |
| Cloreto de cálcio 10% | 10 ml em 5 minutos | Preferido em parada cardiorrespiratória ou peri-parada. Mais irritante à veia |
Início de ação: 1 a 3 minutos. Repetir o ECG em 5 minutos; se os sinais persistirem, a dose pode ser repetida.
Em uso de digoxina: diluir em 100 ml e infundir em 20 a 30 minutos.
O que o cálcio faz — e o que não faz
O cálcio restaura o gradiente transmembrana do miócito e reduz a toxicidade cardíaca. Ele não baixa o potássio sérico. O valor permanece exatamente onde estava. O cálcio compra tempo para que os passos seguintes atuem.
Passo 2: deslocar o potássio para dentro da célula
| Droga | Dose | Observação |
|---|---|---|
| Insulina regular + glicose | 10 U de insulina em 25 g de glicose EV | Eixo principal. Queda esperada de até 1 mmol/L. Pico em 30 a 60 min, duração de 2 a 4 h |
| Salbutamol nebulizado | 10 a 20 mg | Adjuvante em potássio ≥ 6,5 (grau 1B); considerar em 6,0 a 6,4 (grau 2C) |
| Bicarbonato de sódio | 50 mEq EV | Somente na presença de acidose metabólica. Adjuvante, nunca isolado |
A dose do salbutamol não é erro de digitação
10 a 20 mg de salbutamol nebulizado é dez a vinte vezes a dose usada na asma. Prescrever salbutamol em dose de crise asmática para tratar hipercalemia equivale a não prescrever nada.
O salbutamol não deve ser usado como monoterapia, salvo quando não há acesso venoso disponível para insulina e glicose. Seu efeito é maior em associação com o esquema insulina-glicose.
A complicação mais comum não é arritmia
É hipoglicemia. Glicemia prévia abaixo de 126 mg/dL exige glicose adicional. A glicemia deve ser monitorizada por 6 horas após a administração.
Passo 3: remover potássio do corpo
| Método | Dose / conduta | Observação |
|---|---|---|
| Diurético de alça | Conforme função renal e volemia | Só funciona com diurese preservada |
| Ciclossilicato de zircônio e sódio | 10 g VO 3×/dia por 48 a 72 h; manutenção 5 a 15 g/dia | Queda significativa já em 1 hora após dose única de 10 g |
| Patiromer | 8,4 g/dia | Iniciado em ambiente hospitalar |
| Hemodiálise | Conforme indicação | O método mais eficaz |
Por que o poliestireno saiu do protocolo agudo
O UKKA 2023 retirou a resina de poliestireno do protocolo de tratamento agudo, orientando que não seja utilizada a menos que não exista outra opção — por risco de eventos adversos e falta de evidência de eficácia no cenário agudo.
A realidade brasileira impõe uma ressalva. Na maior parte dos serviços, ciclossilicato e patiromer não estão disponíveis. Isso significa, na prática, que a resina segue sendo a única opção oral acessível — e que o limiar para acionar a nefrologia precisa ser mais baixo do que o sugerido pela diretriz.
O que é sempre esquecido no manejo da hipercalemia
Suspender o agente causador. IECA, BRA, espironolactona, anti-inflamatório, trimetoprim, heparina, betabloqueador.
Descartar pseudo-hipercalemia. Hemólise da amostra, garrote prolongado, punção difícil, trombocitose ou leucocitose extremas. Tratar potássio elevado de amostra hemolisada é tratar o tubo, não o paciente.
Monitorização contínua de ECG se houver alteração eletrocardiográfica ou potássio ≥ 6,5.
Reavaliação seriada. Eletrólitos em 1 hora e, enquanto o potássio permanecer acima de 6,0, em 2, 4, 6 e 24 horas.
A moldura honesta
O dado. UKKA 2023: gluconato de cálcio 30 ml em 10 min; cloreto preferido em parada; insulina 10 U com 25 g de glicose; salbutamol nebulizado 10 a 20 mg como adjuvante em potássio ≥ 6,5 (1B); ciclossilicato 10 g três vezes ao dia; poliestireno retirado do protocolo agudo; glicemia monitorada por 6 horas.
O raciocínio. Os passos 1 e 2 são cronômetro, não tratamento. Quem para no passo 2 observa o potássio retornar em 2 a 4 horas — frequentemente no plantão seguinte, com quem não acompanhou o episódio.
A opinião. Os dois erros mais frequentes são o salbutamol prescrito em dose de asma e a ausência do terceiro passo. E vale registrar que a diretriz recomenda ligantes que a maioria dos serviços brasileiros não possui.
Perguntas frequentes
Qual a dose de gluconato de cálcio na hipercalemia? 30 ml de gluconato de cálcio 10% em 10 minutos. Em parada ou peri-parada, prefere-se cloreto de cálcio 10%, 10 ml em 5 minutos.
O cálcio abaixa o potássio? Não. O cálcio estabiliza a membrana do miócito e reduz a toxicidade cardíaca, mas o potássio sérico permanece inalterado.
Qual a dose de insulina para hipercalemia? 10 unidades de insulina regular endovenosa em 25 g de glicose. A glicemia deve ser monitorizada por 6 horas.
Quanto de salbutamol usar na hipercalemia? 10 a 20 mg por via inalatória — dez a vinte vezes a dose habitual da asma. Não deve ser usado isoladamente.
A partir de qual valor de potássio devo tratar? Alteração no ECG indica estabilização imediata da membrana. Sem alteração no ECG, potássio ≥ 6,5 mmol/L caracteriza hipercalemia grave e exige tratamento urgente, monitorização e reavaliação seriada; a indicação de cálcio segue o ECG e o contexto clínico.
Bicarbonato funciona na hipercalemia? Apenas como adjuvante e apenas na presença de acidose metabólica. Não deve ser usado isoladamente.
Referências
- UK Kidney Association (atualização de 2026) — Guideline on the Treatment of Acute Hyperkalaemia in Adults
- Diretrizes de suporte avançado de vida — manejo de distúrbios eletrolíticos com risco de arritmia
Sobre o autor
Dr. Gabriel Rangel — Médico intensivista. Coordenador de UTI no Hospital Santa Rita. Formado pela UFPR. Cofundador do MD Ensino, com pós-graduação em Emergência e Terapia Intensiva.
Publicado em: 16 de setembro de 2026. Última atualização: 16 de setembro de 2026.
Este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui avaliação clínica individualizada.
