Medicina

Como tratar hipercalemia: protocolo, doses e os três passos

Protocolo prático para hipercalemia: estabilização cardíaca, redistribuição celular e remoção definitiva de potássio.

Admin
16 de setembro de 2026
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Resumo rápido: o tratamento da hipercalemia segue três passos, sempre nesta ordem. Primeiro estabilizar a membrana com cálcio — gluconato de cálcio 10%, 30 ml em 10 minutos — quando houver alteração no ECG atribuível à hipercalemia. Potássio igual ou maior que 6,5 mmol/L exige tratamento urgente, monitorização e reavaliação seriada. Segundo, deslocar o potássio para dentro da célula com insulina regular 10 U em 25 g de glicose e salbutamol nebulizado 10 a 20 mg. Terceiro, e único definitivo, remover potássio do corpo: diurético de alça, ligantes orais ou hemodiálise.

A armadilha do tema está em parar no segundo passo. Nenhuma droga dessa etapa retira potássio do organismo — o efeito da insulina dura 2 a 4 horas, e sem o terceiro passo o potássio retorna.


Passo 1: estabilizar a membrana com cálcio

Indicação: alteração no eletrocardiograma atribuível à hipercalemia. Potássio igual ou superior a 6,5 mmol/L caracteriza hipercalemia grave e exige tratamento urgente, monitorização contínua e reavaliação seriada.

DrogaDoseObservação
Gluconato de cálcio 10%30 ml em 10 minutosPreferido na maioria dos pacientes com sinais de hipercalemia no ECG
Cloreto de cálcio 10%10 ml em 5 minutosPreferido em parada cardiorrespiratória ou peri-parada. Mais irritante à veia

Início de ação: 1 a 3 minutos. Repetir o ECG em 5 minutos; se os sinais persistirem, a dose pode ser repetida.

Em uso de digoxina: diluir em 100 ml e infundir em 20 a 30 minutos.

O que o cálcio faz — e o que não faz

O cálcio restaura o gradiente transmembrana do miócito e reduz a toxicidade cardíaca. Ele não baixa o potássio sérico. O valor permanece exatamente onde estava. O cálcio compra tempo para que os passos seguintes atuem.


Passo 2: deslocar o potássio para dentro da célula

DrogaDoseObservação
Insulina regular + glicose10 U de insulina em 25 g de glicose EVEixo principal. Queda esperada de até 1 mmol/L. Pico em 30 a 60 min, duração de 2 a 4 h
Salbutamol nebulizado10 a 20 mgAdjuvante em potássio ≥ 6,5 (grau 1B); considerar em 6,0 a 6,4 (grau 2C)
Bicarbonato de sódio50 mEq EVSomente na presença de acidose metabólica. Adjuvante, nunca isolado

A dose do salbutamol não é erro de digitação

10 a 20 mg de salbutamol nebulizado é dez a vinte vezes a dose usada na asma. Prescrever salbutamol em dose de crise asmática para tratar hipercalemia equivale a não prescrever nada.

O salbutamol não deve ser usado como monoterapia, salvo quando não há acesso venoso disponível para insulina e glicose. Seu efeito é maior em associação com o esquema insulina-glicose.

A complicação mais comum não é arritmia

É hipoglicemia. Glicemia prévia abaixo de 126 mg/dL exige glicose adicional. A glicemia deve ser monitorizada por 6 horas após a administração.


Passo 3: remover potássio do corpo

MétodoDose / condutaObservação
Diurético de alçaConforme função renal e volemiaSó funciona com diurese preservada
Ciclossilicato de zircônio e sódio10 g VO 3×/dia por 48 a 72 h; manutenção 5 a 15 g/diaQueda significativa já em 1 hora após dose única de 10 g
Patiromer8,4 g/diaIniciado em ambiente hospitalar
HemodiáliseConforme indicaçãoO método mais eficaz

Por que o poliestireno saiu do protocolo agudo

O UKKA 2023 retirou a resina de poliestireno do protocolo de tratamento agudo, orientando que não seja utilizada a menos que não exista outra opção — por risco de eventos adversos e falta de evidência de eficácia no cenário agudo.

A realidade brasileira impõe uma ressalva. Na maior parte dos serviços, ciclossilicato e patiromer não estão disponíveis. Isso significa, na prática, que a resina segue sendo a única opção oral acessível — e que o limiar para acionar a nefrologia precisa ser mais baixo do que o sugerido pela diretriz.


O que é sempre esquecido no manejo da hipercalemia

Suspender o agente causador. IECA, BRA, espironolactona, anti-inflamatório, trimetoprim, heparina, betabloqueador.

Descartar pseudo-hipercalemia. Hemólise da amostra, garrote prolongado, punção difícil, trombocitose ou leucocitose extremas. Tratar potássio elevado de amostra hemolisada é tratar o tubo, não o paciente.

Monitorização contínua de ECG se houver alteração eletrocardiográfica ou potássio ≥ 6,5.

Reavaliação seriada. Eletrólitos em 1 hora e, enquanto o potássio permanecer acima de 6,0, em 2, 4, 6 e 24 horas.


A moldura honesta

O dado. UKKA 2023: gluconato de cálcio 30 ml em 10 min; cloreto preferido em parada; insulina 10 U com 25 g de glicose; salbutamol nebulizado 10 a 20 mg como adjuvante em potássio ≥ 6,5 (1B); ciclossilicato 10 g três vezes ao dia; poliestireno retirado do protocolo agudo; glicemia monitorada por 6 horas.

O raciocínio. Os passos 1 e 2 são cronômetro, não tratamento. Quem para no passo 2 observa o potássio retornar em 2 a 4 horas — frequentemente no plantão seguinte, com quem não acompanhou o episódio.

A opinião. Os dois erros mais frequentes são o salbutamol prescrito em dose de asma e a ausência do terceiro passo. E vale registrar que a diretriz recomenda ligantes que a maioria dos serviços brasileiros não possui.


Perguntas frequentes

Qual a dose de gluconato de cálcio na hipercalemia? 30 ml de gluconato de cálcio 10% em 10 minutos. Em parada ou peri-parada, prefere-se cloreto de cálcio 10%, 10 ml em 5 minutos.

O cálcio abaixa o potássio? Não. O cálcio estabiliza a membrana do miócito e reduz a toxicidade cardíaca, mas o potássio sérico permanece inalterado.

Qual a dose de insulina para hipercalemia? 10 unidades de insulina regular endovenosa em 25 g de glicose. A glicemia deve ser monitorizada por 6 horas.

Quanto de salbutamol usar na hipercalemia? 10 a 20 mg por via inalatória — dez a vinte vezes a dose habitual da asma. Não deve ser usado isoladamente.

A partir de qual valor de potássio devo tratar? Alteração no ECG indica estabilização imediata da membrana. Sem alteração no ECG, potássio ≥ 6,5 mmol/L caracteriza hipercalemia grave e exige tratamento urgente, monitorização e reavaliação seriada; a indicação de cálcio segue o ECG e o contexto clínico.

Bicarbonato funciona na hipercalemia? Apenas como adjuvante e apenas na presença de acidose metabólica. Não deve ser usado isoladamente.


Referências

  • UK Kidney Association (atualização de 2026) — Guideline on the Treatment of Acute Hyperkalaemia in Adults
  • Diretrizes de suporte avançado de vida — manejo de distúrbios eletrolíticos com risco de arritmia

Sobre o autor

Dr. Gabriel Rangel — Médico intensivista. Coordenador de UTI no Hospital Santa Rita. Formado pela UFPR. Cofundador do MD Ensino, com pós-graduação em Emergência e Terapia Intensiva.

Publicado em: 16 de setembro de 2026. Última atualização: 16 de setembro de 2026.

Este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui avaliação clínica individualizada.

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#prescrição médica#hipercalemia#emergência